segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A vida é bela

    Não, a vida não é bela. Ela não é feita de flores, cartas de amor e abraços. Ela é feita de rosas secas, cartas que não foram enviadas e fotos. Os amigos viram vícios ou a recíproca e, de repente, tudo que você viveu está dentro de livros ou gavetas que você não abria há tempos, e você está sozinho, bêbado e procurando remédios e moedas para o cigarro quando acha resquícios daquilo que um dia foi sua vida. E tudo vira nostalgia. Toda a alegria, surpresa, tristeza, raiva, perdão; tudo acaba esquecido e reduzido a memórias vagas. As únicas coisas quentes que ainda restam são a cerveja quente no fundo do copo e a lágrima que escorre  por seu rosto e cai direto no copo.

    Você liga a televisão para parar de chorar e rir de coisas que não deveriam ser engraçadas. E aparece um idiota falando o quão bela a vida é. Discorde. Desligue a televisão. Tome os remédios que estavam em cima da foto e beba o resto da cerveja para fazê-los descer. Durma.

    Não, a vida não é bela. Mas amanhã vai ser pior. Amanhã tem a ressaca.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Imaculada

    Catarine não o viu entrando. Estava deitada de costas e ele passou as mãos pelas costas da moça, levantando a leve roupa de dormir e deixando à mostra sua pele alva, marcada por os pelos eriçados pelo contato. Levou as mãos até o ombro dela, virando-a e apertando-a contra seu corpo robusto e frio enquanto beijava-lhe o pescoço. Desceu por seus braços e levou as belas mãos da moça aos lábios, beijando-as repetidamente. Catarine sentiu aquele contato nos pés, nas pernas, na barriga, nos braços... ela queria, mas toda vez que se aproximavam do grand finale ele simplesmente saia, como se perdesse as forças. Por que insistiam? Aquela paixão que sentiam um pelo outro era irracional. Para ela, nada na vida conseguiria superar as labaredas que subiam-lhe pelo corpo quando pensava nele. O amado seria capaz de abandonar tudo por ela, mas, afinal, do que valia tudo isso se seria só por uma noite? Nunca mais se veriam... os amantes teriam que escolher entre torturar-se frequentemente ou finalmente deixarem-se levar e amar-se para nunca mais.

    Catarine não o viu sair. Deixou-a deitada, com os olhos vazios de sentimento e cheios de lágrimas. Ela não suportava mais, isso a enfraquecia, mas ela precisava. Era um vício tóxico para aquele corpo frágil e mente confusa.

    Acordou naquele lugar tão conhecido, mas não era o mesmo em que dormira. As paredes brancas e o cheiro de limpeza davam-lhe a sensação de ressaca moral, mas ela estava acostumada. Era o preço a ser pago.

    Aquela mulher baixinha, já conhecida, entrou e fechou a porta atrás de si. Olhou a menina com carinho e sorriu, mostrando os dentes brancos como sua roupa. Aproximou-se e sentou em uma cadeira ao lado do leito de Catarine.

    -Por quê?
    -Digamos que eu seja apaixonada pela morte...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Casamento

    Ela está caída no chão. Ele, em pé, ao lado dela. Atônito, surpreso, revoltado... não é sua obrigação descrever os sentimentos. Sua obrigação é senti-los, eu descrevo.
    Depois de um casamento tranquilo de vinte anos, ela o deixou.Quando ele concordou com aquele 'até que a morte os separe' que saiu da boca daquele careca imbecil, o homem achou que a morte telefonaria previamente para que as devidas providências fossem tomadas; e chegaria no momento combinado e gentilmente conduziria um deles pela mão, enquanto o outro aguardaria sua vez, que não demoraria.
    Acontece que não foi assim. Uma lágrima quente de raiva escorreu por seu rosto e pingou sobre sua esposa. Ele, que antes apenas espichara o pescoço pra ver a mulher, como uma criança curiosa; agora estava ajoelhado ao lado dela. Pegou aquelas mãos que há pouco eram quentes e beijou-as devagar, molhando-as com suas lágrimas. Abaixou-se mais e sussurrou o nome da mulher, como ele fazia para acorda-la. Ela, no entanto, não ousou ultrapassar a barreira final para dizer o quanto o amava e ia sentir saudades...
    Quando acordou, estava ao lado dela, o lençol encharcado de choro e ela imóvel. Não soube ao certo quanto tempo ficara lá, muito menos eu. Ligou para quem tinha que ligar, preparou o que tinha que preparar; mas ela não agradeceu. Ele a perdoou pela última vez. Beijou-a pela última vez. Deitou-se com ela pela última vez. Morreu com ela pela segunda vez. Afinal, nem a morte conseguiu separa-los.

domingo, 7 de março de 2010

Tira a faca, nasce a mesa

   O sol se põe, mais uma noite nasce. A solidão vem com ela, abrindo-me os olhos para a cidade vazia. Todos se vão, vão se juntar aos seus amados companheiros. Sobram os loucos, os poetas, os sozinhos, os poetas loucos e sozinhos. Talvez saiam a perambular pelo cinza, tão frio e convidativo. Podem romancear sua insônia com lágrimas de amor sem amante, ou ódio generalizado. Ou podem escrever sem se preocupar com quem vai ler, mas se arrependendo de não ter chorado águas socializáveis para compartilha-las pela manhã. Podem, ainda, cansar-se da rotina e fazer uma orgia de pílulas, giletes, cordas e revólveres; acordando com ressaca moral ou não acordando...
   A lua se põe, mais um dia nasce. Os poetas, loucos, sozinhos e acompanhados voltam a ser não criaturas noturnas, individuais e fascinantes; mas apenas pessoas. Vampiros que morrer com cada sol e renascem com cada escuridão.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Azar de quem ama

O coração dispara
Debate-se contra alguma coisa que não está dentro de mim
Minha visão fica ainda menos clara
Meus ouvidos só ouvem meu coração
E a enchente de substâncias que foram derramadas no meu sangue
Cravo minhas unhas na palma da mão
Por mais que eu tente, não há escapatória
Já foi
Estou odiando

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Esperança


Abro os olhos, ainda não acostumados com a claridade.
Vem meu sofrimento, amigo de horas diversas.
Vêm os pensamentos, aqueles que tanto me atormentam.
E eu, que já tomo isso como normal, nem imagino o que é vontade de viver.
Nem imagino o que seja a felicidade que não momentânea
Nunca provei a liberdade de acordar sem ter vontade de fechar os olhos para sempre
Nem de dormir que não para fugir do mundo de verdade
Nem de amar profundamente tudo que me cerca
Talvez nunca chegue a saber.
Do que me vale então viver?
Do que me vale criar esperanças?
O que eu ganharei me torturando dessa maneira?
Cada vez perco mais
Cada dia é mais dor
No entanto, cada dia vivido é um a menos.
Então vou vivendo os que me restam
Na esperança de um dia que realmente valha a pena

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Pensamentos não tem parágrafos nem continuações

"Pior do que tem menos do que merece ou nada ter é ter mais do que merece". It (supondo que fosse um sujeito sem gênero) era uma pessoa que vivia uma 'vidinha sossegada'. Tinha conquistas e elogios no seu dia. Vários o invejavam, outros tantos o admiravam. Nunca tinha parado pra pensar que nunca se esforçou deveras para conseguir o que queria. Tudo apenas vinha. Era como sorte, mas como It não acreditava em sorte e coisas randômicas, dedicou-se a pensar no motivo de seu relativo sucesso. Aliás, dedicação não é bem a palavra, pois It não era muito dedicado a nada. Pois bem, sua breve concentração levou nossa personagem à curiosa conclusão de que nunca chegou a merecer o que tinha. Não sabia o porquê de ter obtido tanto, mas sabia o porquê de não estar nem um pouco satisfeito com suas vitórias. E não podia explicar sua amargura a ninguém, pois as pobres mentes provavelmente pensariam que o ego de It queria ser massageado se projetassem suas vidas na dIt; e isso não iria ajudar. Isso só o levaria a pensar como enganador foi durante tanto tempo, sendo que tinha tudo para descobrir sua falta de vergonha e negou-se a admitir tudo. Então It apenas escondeu tudo de todos e agora terá que conviver com a verdade (ou, como diria um garoto com as estrelas nos olhos, 'o preço da pureza'). E o pior não é isso. O pior é que tudo pode piorar, porque a história ainda não acabou.

Pensamentos não tem parágrafos

Estou preso em uma gaiola. Olho para todos os cantos da minha prisão. Aqui eu tenho água, alpiste e frutas. Aqui fico protegido dos cães, gatos, raposas, águias e corujas. Este cubículo de ferro pode parecer o paraíso, mas é minha sina. Antes eu vivia feliz, encarcerado. Me sentia satisfeito, amado e protegido. Não tinha ambições. Mas com o passar do tempo, fui vendo que há coisas mais valiosas que proteção, uma delas é a liberdade. Penso nela todos os dias, observando por entre as grades a paisagem que pretendo abraçar com minhas asas. Embora o meu canto distraído possa parecer um samba, eu canto uma triste bossa nova sobre o meu desejo de liberdade. Sobre como é ter asas e não poder voar. Sobre como é só poder cantar para essas pessoas que passam por mim e não me notam. Sobre como o mundo lá fora é perigosamente belo. Eu sei que corro o risco (Ah! O risco...) de sucumbir às armadilhas da imensidão do mundo livre, mas isso só embeleza mais minha aventura imaginária. Paro de cantar e começo a limpar-me. Sou então interrompido por uma cantoria estranha. Não é pássaro algum. Procuro a minha volta até que chego a conclusão que quem 'cantava' era uma garota. Ela está também atrás de grades. De duas, por sinal: daquela marrom, na qual ela se agarra para aproximar-se de mim, e de uma sem cor definida, com formato de metáfora. Consigo ver que ela passa pelo mesmo drama que eu. Seus olhos tristes iluminam-se ao reconhecer-me. Sou a representação dela. Somos iguais. Rapidamente ela sai do quarto e vai buscar uma fruta para mim. Experimento e não gosto. Ela sai triste em busca de algo que me agrade. Busca algumas sementes e pula de alegria ao ver que elas fazem parte de meu menu. Enquanto como, esqueço do meu dilema existencial. Ela não. Observa-me e planeja como irá me conceder a liberdade sem que eu caia desfalecido nas garras do destino. Sou só um periquito azul, ela é só uma menina triste, mas nos ajudamos quase inconscientemente, como se ela existisse para abrir a portinhola da minha gaiola e eu existisse para abrir-lhe os olhos e o coração. Encho-me de esperança. Olho para ela, que escreve. E eu canto minha bossa-nova. E ela escreve nossa bossa nova.

O banho

Já estou despida. Naõ só sem roupa, como despida do mundo externo ao banheiro. É um momento só meu. Ligo o chuveiro e deixo a água morna cair sobre meu corpo, de modo que meus músculos enrijecem de prazer. Lavo meus cabelos e faço bastante espuma. Acho que ainda não cresci... a água tira meu brinquedo e ele escorre por mim até despedir-se, esvaindo-se pelo ralo. Pego o condicionador. Não sei por que, mas gosto de ler o que está escrito nessas embalagens. Quanta baboseira. O que eu quero mesmo é abster-me dessas imbecilidades sociais. O sabonete me ensaboa, vou tirar toda aquela sujeira invisível. Deleito-me com sua textura, seu cheiro e sua espuma.
Chegou a hora. É difícil, mas tem que ser feito. Enfio-me embaixo do chuveiro, e tudo que antes me limpava vai embora levando minha sujeira. Olho para ele. "Desligue, nos veremos em breve", ele diz. Não respondo, apenas obedeço. Sinto o gélido ar que entra pela janela, apenas um sinal do que há lá fora. Minha felpuda amiga e companheira tira os pingos de água que meu corpo insiste em reter e me abraça para ajudar na partida. Aí vamos nós. A maçaneta é mais fria do lado de fora. Um último olhar para meu refúgio: "Até mais tarde", falamos quase juntos, como se fizéssemos parte da mesma mente. Saio e solto a maçaneta, o primeiro e último contato... ah, o exterior! Nada como a lama após a chuva...

À morte

Um dia você há de vir, nós duas sabemos. Não que isso me dê o direito de pedir alguma coisa, mas eu sou uma humana abusada e sem limites. Pedirei.
Quando você vier, que não venha lenta e calma. Venha súbita e turbulenta, à imagem da minha vida.
Que eu saiba ou sinta algum tempo antes, pois as devidas providências devem ser tomadas, cheiradas, fumadas e fodidas.
Que não venha em vão!, pois em vão basta minha vida...
Que não venha dolorosa, pois dolorosa já foi a vida.
Que venha!, eu peço; venha vermelha, sangrenta e em público! Venha raivosa, amarga, doce! Venha como a cereja no topo, ou como o barulho da colher no fundo do prato! Venha, eu sei que seremos amigas. Pois se fui inimiga da vida a ponto de desejar-te, existirá amizade no fim do túnel.