sexta-feira, 4 de junho de 2010

Casamento

    Ela está caída no chão. Ele, em pé, ao lado dela. Atônito, surpreso, revoltado... não é sua obrigação descrever os sentimentos. Sua obrigação é senti-los, eu descrevo.
    Depois de um casamento tranquilo de vinte anos, ela o deixou.Quando ele concordou com aquele 'até que a morte os separe' que saiu da boca daquele careca imbecil, o homem achou que a morte telefonaria previamente para que as devidas providências fossem tomadas; e chegaria no momento combinado e gentilmente conduziria um deles pela mão, enquanto o outro aguardaria sua vez, que não demoraria.
    Acontece que não foi assim. Uma lágrima quente de raiva escorreu por seu rosto e pingou sobre sua esposa. Ele, que antes apenas espichara o pescoço pra ver a mulher, como uma criança curiosa; agora estava ajoelhado ao lado dela. Pegou aquelas mãos que há pouco eram quentes e beijou-as devagar, molhando-as com suas lágrimas. Abaixou-se mais e sussurrou o nome da mulher, como ele fazia para acorda-la. Ela, no entanto, não ousou ultrapassar a barreira final para dizer o quanto o amava e ia sentir saudades...
    Quando acordou, estava ao lado dela, o lençol encharcado de choro e ela imóvel. Não soube ao certo quanto tempo ficara lá, muito menos eu. Ligou para quem tinha que ligar, preparou o que tinha que preparar; mas ela não agradeceu. Ele a perdoou pela última vez. Beijou-a pela última vez. Deitou-se com ela pela última vez. Morreu com ela pela segunda vez. Afinal, nem a morte conseguiu separa-los.

4 comentários:

  1. Isso é muito HIM.
    Quando a coisa é foda assim, quem é a morte para impedir que o "amor" continue.
    Ele já estava morto...

    ResponderExcluir
  2. Muito legal, seria o sonho a tentativa de alerta-lo para o que aconteceria?
    ou seria ela tentando fazer isso...
    Muito subjetivo, do geito que da gosto de ler \o/

    rsrrss

    ResponderExcluir